sábado, 9 de março de 2013

A VIDA EM NÚMEROS OU AS RAZÕES DO MEU CANSAÇO


Desde o início do mês de março, com os prazos institucionais se esgotando, tive de preencher o Currículo Lattes, do CNPq, e a partir dele o Relatório de Atividades Docentes (RAD), instrumento administrativo utilizado para aferir se um docente efetivamente trabalhou no ano anterior, uma espécie de Imposto de Renda Pessoa Física das atividades acadêmicas.
Ao preencher tais instrumentos de controle, fui forçado a juntar os comprovantes das atividades guardados nas estantes e gavetas. E somente assim pude me aperceber das razões pelas quais me encontro com tamanho cansaço.
No RAD são previstas 3120 horas de atividades; quando você ultrapassa esse total o sistema não aceita a inserção dos dados. Extrapolei isso em 2012 em mais de 200 horas, segundo os critérios institucionais.
Todavia, pressupondo que tivéssemos produzido as horas estabelecidas como teto no sistema informatizado, isso significa que há uma previsão média de 8,5 horas diárias de trabalho; e se considerarmos apenas 30 dias de férias, esta carga sobe para 9,3 horas diárias.
Como é possível isso? Simples: basta sacrificar sábados, domingos, feriados, férias, lazer, exercícios físicos. É o que acabei fazendo para dar conta das atividades e compromissos assumidos (Bancas, orientações de graduação, mestrado, doutorado, iniciação científica, eventos a organizar e a participar, publicações, aulas, etc.).
E o resultado disso é compensador?
Sob o ponto de vista funcional, não! – recebemos a mesma remuneração de quem faz muito menos.
Sob o ponto de vista físico, não! – ficamos um bagaço humano, estressados, cansados, estafados física e mentalmente.
Sob o ponto de vista do relacionamento humano, sim! – poder participar da vida das pessoas e dos momentos importantes para elas (uma Banca Examinadora, por exemplo); poder auxiliar na caminhada nem sempre clara ou facilmente vislumbrada pelo orientando (numa orientação de Iniciação Científica, Monitoria, TCC, Dissertação ou Tese); poder chegar até as pessoas e dividir com elas a compreensão de determinados problemas sociais sob uma perspectiva crítica (num livro, capítulo de livro ou artigo; numa aula, palestra ou curso de extensão); poder estar com os colegas e aprender com eles, na cúmplice troca de idéias dos Grupos de Pesquisa. Isso tudo é que acaba por tornar compensador tamanho esforço.
Os dados de 2012 (04 Grupos de Pesquisa; apresentação de trabalhos em eventos nacionais e internacionais; oito disciplinas na Graduação; oito disciplinas na Pós-Graduação; dois livros organizados e publicados; cinco capítulos de livro; um prefácio de livro; um artigo em periódico Qualis; seis orientações de doutorandos; onze orientações de mestrandos; uma orientação de graduando de Iniciação Científica; cinco orientações defendidas; vinte e duas bancas de Mestrado e de Doutorado) retratam o tamanho do meu cansaço.
Entretanto, estes números dizem muito mais que isso, pois revelam a alegria de alguém que se sente realizado naquilo que faz e que está disposto a continuar fazendo o que gosta.
Portanto, grato àqueles e àquelas com quem pude trabalhar em 2012. E continuem contando comigo em 2013, pois quando eu aposentar ou “cantar prá subir” (rssss), aí haverá tempo suficiente para o devido descanso! But not now, not yet!!!


MOMENTOS MÁGICOS, ONTEM E HOJE


Foram três semanas extremamente carregadas de atividades, que culminaram com o preenchimento do Relatório de Atividades Docentes (prazo-limite no dia 08/03) e com a atualização do Currículo Lattes (para o relatório trienal da CAPES). Entremeadas a estas atividades, ocorreram ainda aulas na Graduação e na Pós-Graduação, seleção de Mestrado e de Doutorado do PPGSD, seleção de Mestrado no PPGJA, orientações de dissertações e teses, bancas de dissertações e de teses, reuniões dos Grupos de Pesquisas nos quais estou inserido. Ah, e existem os compromissos familiares, não menos significativos e exigentes de tempo.
Enfim, chego neste dia 09 de março exausto, mas gasto um pouco do meu tempo e da minha energia hoje para registrar dois momentos especiais ocorridos no último dia 01 de março.

Momento 01: A primeira defesa de tese do PSGSD da UFF
Neste dia aconteceu a primeira defesa de tese do doutorado do Curso de Ciências Jurídicas e Sociais (popularmente conhecido como PPGSD ou “Sociologia e Direito”), levada a cabo pelo aluno Eder Fernandes Monica, sob minha orientação. O referido discente fez um ótimo trabalho, que ganha maior relevância se levarmos em conta que ele, por questões de foro pessoal, decidiu escrever e defender sua tese cumprindo o prazo mínimo definido pela CAPES (dois anos) e não utilizou os quatro anos dos quais a maioria dos discentes doutorandos se vale para concluir seu Curso.
Para dar conta desta empreitada, Eder sacrificou horas de sono e de lazer, canalizando grande parte do seu tempo ao longo dos últimos dois anos, especialmente nos seis meses que antecederam a defesa, para a construção da tese. E eu, enquanto orientador, também enfrentei o “rescaldo” desta situação (rssss), com um acompanhamento bastante intenso ao longo do processo.
O coroamento desta caminhada se deu com a Banca Examinadora, formada pelos professores doutores Luís Antonio Cunha Ribeiro, Luiz Antonio da Silva Peixoto, Gustavo da Silveira Siqueira e Marcus Fabiano Gonçalves. Estes grandes professores e pesquisadores deram um show de competência, cada uma abordando sob uma ótica o tema da tese e apresentando questionamentos, observações, que foram assimiladas, respondidas e saboreadas; sim, este é o termo: saboreadas; pois na origem da palavra conhecimento está o sentido de informação (sapere), mas também de sabor (sapore). Todos os professores foram brilhantes, mas a intervenção do colega Marcus Fabiano foi digna de uma Aula Magna em qualquer Universidade do mundo.
A platéia que compareceu e acompanhou as quase cinco horas do ritual da defesa teve a oportunidade de testemunhar um momento raro, especial na vida de uma Universidade, que retrata o significado maior da Academia enquanto produtora de conhecimento crítico sobre, com e para a sociedade. Quem lá esteve vivenciou um momento ímpar e certamente saiu sabendo qual é a diferença entre uma Universidade e um “colegião”, destes que comercializam cursos e certificados como se estivessem vendendo fast food. Fizemos história na Universidade Federal Fluminense no último 01 de março de 2013; fizemos Universidade.

Momento 2: 28 anos de Magistério
Em 01 de março último, no anonimato e na discrição que uma data destas tem na vida pública, posto que seja lembrada somente pelo seu protagonista, comemorei 28 anos de magistério, sendo 27 anos de magistério superior.
Em 01 de março do distante ano de 1985, um jovem idealista de 19 anos de idade (completei 20 anos alguns dias depois deste fato), começou a lecionar OSPB, História e Religião, no Colégio Marista de Passo Fundo, para alunos de 7ª e 8ª séries do 1º e para alunos do 2º Grau.
Lembro-me que, no primeiro dia de aula, cheguei tenso, mão fria e úmida, boca e garganta secas, corpo totalmente aceso, como se estivesse prestes a um combate. Eu havia passado os três meses antecedentes preparando todas as aulas, com dedicação de quase 8 horas diárias; as duas semanas que antecederam a estréia foram dedicadas a ensaio na frente do espelho, a revisão de cada detalhe, para que tudo transcorresse bem. Mas a noite anterior foi passada sem dormir, tamanha a tensão e expectativa: e se os alunos não gostassem de mim e do meu jeito de ministrar aulas? E se fizessem uma pergunta que eu não soubesse responder? E se eu esquecesse algum conceito que devia abordar na aula? Enfim, estreei e deu tudo certo! E a coisa fluiu tão bem que surgiu, no ano seguinte, o convite para lecionar na Universidade de Passo Fundo, onde havia me formado.
Para dar conta das aulas na Universidade, deixei de lecionar no Colégio Marista, trocando às trinta horas em sala de aula por dezesseis horas na UPF. E eu ficava os horários nos quais não estava em sala de aula estudando e preparando as aulas para cumprir bem o meu papel.
Coincidência ou não, em 01 de março de 1986, com vinte anos, comecei minha jornada de professor universitário, lecionando Metodologia Científica e Introdução à Filosofia para diversos Cursos da Universidade. Embora com a pouca experiência de magistério do ano anterior, igualmente a adrenalina se fez presente na estréia e nos meses que se sucederam. O cenário era outro, pois encontrava em alguns Cursos pessoas inclusive bem mais velhas e experientes que eu. Como manter a atenção e o interesse deles naquilo que eu trabalhava? Como fazer com que um jovem que mal havia entrado no Curso de Agronomia e que queria fazer análise de solo e aprender técnicas de manejo agrícola pudesse se voltar, ao menos por duas horas na semana, para discutir filosofia ou para aprender as normas da ABNT (contidas na ementa de Metodologia Científica)? E essa dúvida me acompanhava também na Educação Física, na Geografia, na Engenharia Mecânica, na Enfermagem, na Medicina, cursos para quem eu lecionei nos primeiros semestres.
Eu, que havia sido seminarista e que, ao deixar a trajetória rumo ao sacerdócio, por acaso, me vi guindado à situação de professor, mantendo minhas despesas com isso, pensava naquele momento: eu não estou preparado para entrar, nos próximos trinta anos, e lecionar sempre o mesmo conteúdo, repetindo a mesma ementa, de forma burocrática. Comecei a cogitar, nas primeiras semanas de aula, a possibilidade de arrumar outro emprego e investir noutra carreira.
Todavia, passado cerca de um mês de aula, lembro-me de estar lecionando a disciplina de Introdução à Filosofia no Curso de Educação Física quando, ao trabalhar alguns conceitos ligados ao existencialismo (angústia, consciência, vida e morte, etc.) fiz alguns comentários e percebi que, ao fundo da sala, uma aluna começou a chorar discretamente. Conversei com ela ao final e ela me agradeceu porque falei coisas que a levaram a compreender melhor uma dada situação existencial pela qual passava e que a angustiava. Não recordo o nome dela, talvez fosse Rosa (parafraseando Humberto Eco em “O nome da rosa”), mas devo boa parte do que sou a este momento por ela protagonizado, pois foi a partir deste momento que descobri o encanto disso que faço e que me apaixonei pelo que faço.
Nestes anos todos, ainda que a ementa fosse a mesma, jamais ministrei a mesma aula; pois as pessoas para as quais ministrei as disciplinas eram diferentes, tinham dúvidas, expectativas, concepções, vivências distintas. E eu me apercebi que esta coisa chamada magistério é mágica, pois nós mexemos com a sensibilidade, com as emoções, com o humor das pessoas, e somos marcados por elas de igual maneira. E lá se vão 28 anos desde a primeira vez!
De lá para cá me aperfeiçoei, estudei, aprendi, acertei e errei, mas vivi intensamente o que escolhi como profissão e, mais do que isso, abracei como projeto de vida.
A defesa do Eder é um importante capítulo nesta minha caminhada, momento mágico numa trajetória nem sempre fácil ou compreendida. Que bom que pude estar presente e testemunhar a conquista de mais um grande pesquisador, de alguém que parece também ter decidido abraçar o magistério e que começa a consolidar a própria caminhada enquanto docente universitário.
Um dia 01 de março e dois momentos mágicos na vida de um gaúcho, gremista e livre pensador. Obrigado a todos aqueles e aquelas que tornaram possíveis estes dois momentos mágicos em minha existência.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

VIDA E MORTE EM TRÊS MOMENTOS


28 de fevereiro, apenas uma data no calendário. Mas como o calendário é um constructo humano, cada pessoa traz em si a possibilidade de significação e ressignificação do tempo, dos dias, do calendário. Os planetas, as estrelas, as constelações, as marés, as rochas e as plantas não têm a percepção do tempo e não o organizam, ainda que estejam inseridos no fluxo tocado pelo deus Cronos (Κρόνος). Nós, seres humanos, ousamos sentar no trono de Cronos e pretendemos controlar o tempo, organizá-lo, driblá-lo, ultrapassá-lo.
28 de fevereiro, dia importante na minha percepção e na minha ótica do tempo, pois me remete a pensá-lo em termos de vida e morte, a partir de três momentos ou situações.

Momento 1 – Em âmbito mundial, a renúncia de Bento XVI

Após oito anos de Pontificado, Bento XVI surpreende o mundo e renúncia ao cargo supremo da Igreja Católica e à chefia do Estado do Vaticano, algo raríssimo na trajetória de quase dois milênios de cristianismo (somente ocorreu três vezes, sendo a mais recente em 1415, com Gregório XII). Como compreender o gesto de Bento XVI? O que levou o homem Joseph Ratzinger a abrir mão de tamanho poder e responsabilidade para decidir-se pelo recolhimento, aos 85 anos, à vida monástica, de escritos e orações?
Cansado, desiludido com a corrupção, com os escândalos sexuais e com a mentalidade estratégico-instrumental daqueles que estão mais próximos ao poder na Instituição eclesial, o velho Pontífice assume um gesto dramático, de auto-imolação, sem corpo rijo, mas ainda assim tanática. Lincoln, Getúlio Vargas, Allende, foram estadistas que tiraram a vida para marcar, com sangue e morte, o prenúncio de uma nova vida, na expectativa de que o gesto de sacrifício fosse o gerador de um despertar de todos os seus para uma nova ordem, para uma nova era, superando as amarras de um contexto que julgavam intransponível pelas vias normais da política. E com Ratzinger não parece ser diferente.
Ratzinger foi o protagonista e o articulador de boa parte da história recente da Igreja Católica: a) Sua atuação como teólogo, comandando a Congregação para a Doutrina da Fé, versão contemporânea da Inquisição, arrefeceu o ânimo, a articulação e a expressão mundial de movimentos como a Teologia da Libertação, reduzindo o ímpeto do modelo político-organizacional desta, as Comunidades Eclesiais de Base. Quem não se lembra do então padre e teólogo brasileiro Leonardo Boff, proibido pelo Cardeal Ratzinger de qualquer manifestação pública por anos em face das idéias que apresentava no livro que escreveu (Igreja, carisma e poder). Isso significou uma guinada para uma postura dogmática e conservadora na Igreja Católica a partir de meados da década de 1980, desencantando aqueles cristãos que acreditavam no aprofundamento das reformas iniciadas com o Concílio Vaticano II, na década de 1960. Movimentos carismáticos, conservadores, baseados no vetor de um ritualismo piedoso e emotivo, proliferaram pelo mundo a partir de então, ao invés do cristianismo engajado na transformação social e no combate às injustiças e à exploração humana.
b) A força do convencimento pela palavra, a consistência na discussão dos temas teológicos, a discrição e comedimento nos movimentos, a habilidade de articulação política, todas estas foram características que tornaram Joseph Ratzinger influente no processo de eleição de Karol Wojtyla como João Paulo II. Permitiram também que, aos poucos, ele fosse se tornando balizador do discurso do então Papa, de saúde já combalida pelos efeitos do atentado que quase o matou e das complicações advindas disso e do avançar da idade. Atento observador do cenário, Ratzinger percebeu o quanto João Paulo II ficou vulnerável e suscetível ao domínio do establishment que gira em torno do Vaticano, que usou o velho Pontífice polonês e o carisma amealhado por este junto à comunidade mundial e aos fiéis para fazer valer seus interesses, nem sempre dignos de louvor, por vezes até espúrios, seja via Banco do Vaticano, seja em países onde este grupo tinha razões para atuar ou objetivos específicos a atingir.
c) Ao longo do Pontificado de João Paulo II, Ratzinger pavimentou sua condução ao papado, ao influenciar na indicação de novos Bispos e Cardeais que estavam alinhados com seu pensamento teológico e que o tinham como referência intelectual e moral. Tal como um hábil artista, como o Michelangelo a esculpir Moisés, Ratzinger moldou o Colegiado de Cardeais que, com a morte de João Paulo II, o elegeu Sumo Pontífice. Oito anos se passaram e este Colegiado, porém, já está envelhecido, até mesmo para apoiá-lo significativamente ante os reveses da política vaticana e da luta nas entranhas do poder romano; muitos destes Cardeais sequer reúnem condições formais de participarem da escolha do próximo Papa, pelo avançado da idade.
d) Diante deste cenário e vendo que poderia repetir o papel de João Paulo II, tornando-se instrumento de operacionalização dos projetos e interesses de alguns Cardeais da Cúria Romana, ávidos pelo poder e pelas benesses que este confere a quem o detém, Ratzinger mais uma vez surpreende pelo brilhantismo político. Imolando-se politicamente, ele abre espaço para um destes caminhos: ou esse grupo de poder paralelo do Vaticano sai das sombras e faz um candidato próprio, arcando com o ônus político de uma tomada direta do poder papal, pelos compromissos e acordos necessários para conseguir os votos suficientes; ou então esse grupo será substituído por novas e diferentes forças emergentes nas periferias da Igreja Católica; há ainda uma terceira possibilidade, de busca de um nome conservador, capaz de tolerar os abusos dos primeiros, coisa que Ratzinger não mais suportou, e de permitir maior espaço político aos últimos, algo que Ratzinger não conseguia realizar, ante suas convicções de fundo teológico. Antes de sair, porém, Ratzinger tratou de coibir alguns desmandos e interesses deste grupo de poder paralelo, afastando pessoas da cúpula do Banco do Vaticano, do corpo diplomático e da própria Cúria Romana; mexeu peças para facilitar candidaturas e para tornar menos fácil o advento de outras candidaturas a sua sucessão; foram trinta dias em que capitalizou a admiração de alguns, proporcional ao número de poderosos inimigos que arrumou. Nos últimos movimentos da partida, as cartas foram internamente mostradas e conhecidas; as composições e alianças já estão sendo construídas. O Conclave marcará a rodada derradeira desta partida; mas outras partidas serão jogadas pelo novo Pontífice. O grão morre para que dele surja a nova planta e, nesta transmutação que ocorre no tempo e no espaço, morte e vida se completam, se necessitam, se possibilitam. A quebra do anel, a retirada da sapatilha vermelha: morre um Papa, renasce um homem, que se tornou grande ao desdenhar do poder terreno, meta obcecada de muitos dos que o rodeavam, para recolher-se ao anonimato e à discrição de livros e escritos. Auf wiedersehen, Bento XVI; vá em paz, Joseph Ratzinger. 28 de fevereiro, o ocaso de um Pontificado, a possibilidade de uma vida nova.

Momento 2 – Em âmbito local, o resultado do Mestrado

O Programa de Pós-Graduação no qual atuo realizou seleção de Mestrado ao longo das últimas duas semanas, que culmina com o resultado a ser divulgado hoje, 28 de fevereiro de 2012. No cenário das provas escritas, vi pessoas com rostos esperançosos, com gestos nervosos, com expressões de aflição e de angústia; e esse cenário foi se repetindo ao longo das demais etapas (Prova de Língua Estrangeira, Entrevista). Dos quase cem candidatos postulantes a pouco mais de trinta vagas, muitos ficaram pelo caminho e outros se defrontarão com a situação, hoje, de terem chegado à última etapa, mas não conseguirem a aprovação.
Em cada rosto que vejo, em cada pessoa que entrevisto ou avalio, percebo sonhos, planos, desejos, expectativas, razões que as moveram na empreitada de investir tempo, dinheiro, energia, vida, na busca de uma oportunidade de continuar seus estudos em nível de pós-graduação numa Instituição Pública. Cada um destes atores com os quais interajo durante o processo seletivo se encontra em nível próprio de caminhada, de maturidade intelectual, emocional, profissional, humana. Muitos deles, dadas às contingências existenciais e à correria nas quais estão imbricados, talvez sequer se apercebam da própria condição ou situação. E quiçá nós mesmos, os docentes que os estamos avaliando, sejamos juízes-penitentes, como dizia Albert Camus, pois quem sabe estejamos na mesma situação de dificuldade de autocompreensão do nosso dasein, do nosso ser ou estar no aí do mundo.
A sensação de dor, de decepção, de raiva, de indignação, de incompreensão, em suma, de morte, que pode brotar do insucesso num concurso como este é grande. Isso porque, quando somos avaliados e não aprovados, instaura-se uma gama de sentimentos nem sempre claros. Sentimo-nos rejeitados, impotentes, desvalorizados, porque de algum modo a visão que temos do mundo e de determinados problemas existentes na sociedade foram colocadas em xeque, o projeto que pretendíamos desenvolver não foi considerado relevante, o conhecimento que temos acumulado sobre determinada área da sociedade não se mostrou suficiente para garantir a continuidade de uma caminhada, os argumentos que julgávamos consistentes não bastaram para conquistarmos uma vaga. Nossa trajetória de vida, rica em experiências e aprendizados existenciais, acaba pulverizada sob os parâmetros frios e técnicos de pontuação curricular ancorados nas diretrizes das Instituições governamentais de avaliação da Pós-Graduação.
E diante das dificuldades que enfrentamos para compreender os textos dos autores indicados para a seleção, do esforço hercúleo que nos é impingido na tradução exigida na prova de Língua Estrangeira, do domínio prévio de autores especializados na temática que escolhemos como projeto de pesquisa, nossa sensação é de insuficiência. Quantas vezes, socraticamente, nos vemos na dura impressão do “só sei que nada sei”. Lembro-me vivamente de uma situação na qual, preterido numa seleção similar a esta, sentia-me sem chão, sem perspectiva, com a percepção de que fiz muitas coisas na vida, que gastei tempo e envelheci, mas que isto não foi o bastante para preencher as lacunas na minha formação. E aí vem uma espécie de melancolia pelo tempo perdido, pelos livros que não li, pelas palestras que não assisti, pelos idiomas que não aprendi, pela maturação que eu julgava existir, mas que não foi reconhecida pela alteridade, por aqueles que, num dado contexto, estavam me avaliando. Que dor! Que gosto amargo! Que decepção! O que dizer aos amigos, aos colegas de trabalho, aos familiares, aos que torciam por mim? Há uma mortificação em cada reprovação, em cada insucesso, em cada fracasso, em cada queda.
Mas o mundo não acaba em 28 de fevereiro. Nietzsche dizia que o que não nos mata nos torna mais fortes; e da sensação de mortificação surge o combustível para a vida nova – esta é a base das utopias que movem a espécie humana ao longo da história. Utopia (οὐ-τόπος) é tomada por alguns como “não lugar”, inexorável, intransponível, inamovível. Mas para os que fazem história, para aqueles que acreditam firmemente que não vieram ao mundo a passeio, apenas para ocupar burocraticamente um espaço no planeta, utopia significa “não lugar ainda”, e implica que é possível construir as condições objetivas para fazer com que algo novo aconteça, desde que nos movamos e esforcemos nesta direção.
Encontrei, neste ano, pessoas que participaram de outras seleções e que retornaram; algumas delas tiveram êxito e, nos casos em que se tratava de candidatos inscritos na Linha de Pesquisa onde atuo, percebi que tais pessoas chegaram mais maduras, com foco, superando deficiências reveladas em outros concursos, melhorando o currículo, com proficiência maior de língua estrangeira, com prova escrita melhor elaborada. É a fênix em seu ressurgir, é a morte tornando-se vida mais vigorosa. Aos que não obtiveram sucesso neste ano, coragem, força e auto-superação; aos que atingiram seu objetivo, que percebam ser este um começo de caminhada e que aprendam a manter a atitude da busca pelo aperfeiçoamento.

Momento 3 – Em âmbito pessoal, o aniversário de um anjo de luz

28 de fevereiro de 1941. Em plena II Guerra Mundial, nasceu num lugarejo recôndito do sul do Brasil uma pessoa que trazia dentro de si um dom, revelado a todos ao longo de um curto período de vida terrena, que se interrompeu em 15 de novembro de 2009, em face de um câncer agressivo e raro: seu nome era Teresinha Lori, ou simplesmente Lori. O dom que ela tinha era uma capacidade de trazer luz aos ambientes nos quais passava e à vida das pessoas que com ela conviviam. Sempre solícita, jamais dizendo não aos pedidos por ajuda ou atenção, esta mulher semeou vida por onde passou. Seus exemplos, suas palavras, sua discrição, seu jeito simples de ser, seu senso de justiça e de equidade, foram irradiados a todos os que tiveram o privilégio da sua convivência. Mesmo nos momentos de maior dor e sofrimento, já perto de sua morte, ela era capaz de uma palavra de consolo a nós, como que a prenunciar sua partida. E dias antes de partir, no último momento de lucidez que a natureza lhe conferiu, ela se despediu de todos, dizendo que gostava de rosas vermelhas e que queria ser envolta com um manto de rosas quando partisse; e sua vontade se fez. Ela era uma mulher que tinha sua fé cristã e que acreditava na possibilidade do paraíso. Quando penso nela, imagino que, se houver um paraíso, ela se transformou num anjo de luz e foi habitar junto a um cantinho semelhante a este retratado no vídeo abaixo; e se não houver paraíso, se tudo for matéria e átomo, certamente os seus átomos migraram para este lugar e estão conectados a esta ilha.



Este anjo de luz completaria hoje 72 anos; e a saudade que a sua morte deixa, e a força de vida que ela desperta em mim para continuar vivendo, apesar das agruras, faz com que eu compreenda que a frase “nada como o tempo para superar a ausência” não tem o menor sentido. Espero sempre estar à altura dos seus ensinamentos e honrar a sua trajetória de luz. Feliz aniversário, Lori, onde quer que você esteja, qualquer que seja a forma como esteja. Grato por tudo, mãe. 

domingo, 23 de dezembro de 2012

EU ACREDITO EM VOCÊ (DEDICADO AOS MEUS ORIENTANDOS)


Quando comecei, há quase trinta anos, esta jornada como professor e como orientador, na ingênua ousadia dos meus vinte anos de idade, imaginava auxiliar as pessoas na compreensão de autores e ideias, a fim de que elas pudessem galgar degraus da pesquisa e atingir as metas profissionais que, por alguma maneira, eu estaria contribuindo para que realizassem.
Aos poucos fui me dando conta, parafraseando Shakespeare, de que há bem mais entre o céu e a terra do que a nossa vã filosofia consegue perceber.
O trabalho com autores e livros nos remete à cumplicidade com as dúvidas, certezas, expectativas, desejos, necessidades, angústias e vivências que eles partilham conosco. Os problemas por eles discutidos não nos são externos, pois mexem com um conjunto de significados que nos remetem ao mais profundo, adormecido e, por vezes, recalcado de nós mesmos. Somos instigados a nos repensar, à medida que olhamos o mundo pelos olhos deles. E nem sempre isso é fácil.
Sair da zona de conforto, das teorias flatulentas e dos conceitos superficiais e inconseqüentes, da verborragia e da pose pseudo-intelectual, isso são desafios hercúleos.
Mas quando rompemos com a mediocridade, com a mesmice, com a obviedade do velho manual, quando nos descobrimos capazes de, como dizia o grande Immanuel Kant, da sua recôndita Könnigsberg, ousar saber (sapere aude!), aí vemos que não descobrimos nada, pois que descobrir nada mais é do que tirar a coberta de uma verdade que aí já estava. Sim, não descobrimos, PRODUZIMOS, criamos e nos criamos ao criar, renascemos qual fênix nos escritos que brotaram de nós.
Este é um caminho solitário, é uma jornada que ninguém pode fazer por nós, é uma decisão que só nós mesmos podemos tomar. A vontade, em muitos momentos, é largar tudo e fugir, correr, capitular, escancarar para todos que somos massa, que continuamos a ler o mundo pelo palpite e pela doxa.
Por que lutar, afinal?! Por que, se ser raso é mais cômodo? Por que, se saber da fofoca da última hora me é suficiente para me sentir inserido na manada? Por que, se vou me tornar um estranho entre aqueles a quem antes chamava de meus?
Porque você foi tocado pela magia do humano, pela possibilidade do tornar-se o senhor da sua nau, de traçar rumos e de fazer planos, de construir sonhos e de realizá-los. Os pensadores chamaram a isso de “conhece-te a ti mesmo”, de “Aufklärung”, de consciência, de reflexão, de liberdade e de autonomia.
É uma jornada árdua, uma viagem onde cada pessoa passa pelo túnel de si própria. Mas existem pessoas esperando do outro lado do túnel, igualmente caminhantes neste percurso de construção da vida com sabor, da vida com sentido dado por você mesmo, com os outros, não pelos outros.
Esta jornada exige de seus caminhantes um amor profundo: amor à vida, amor ao ser humano, amor à liberdade, amor a si mesmo e ao próximo.
Poucos acreditam ser possível cumprir este percurso, muitos apostam no seu fracasso, no seu abandono, na sua queda, inclusive para poderem com isso justificar a própria covardia ou mediocridade.
Saiba, contudo, que, haja o que houver, eu estarei ao seu lado. EU ACREDITO EM VOCÊ!

I BELIEVE IN YOU (Eu acredito em você)
Solitário é o caminho que tem te tocado
Um caminho sem descanso e sem regresso
Um dia encontrarás novamente a luz
Não sabias disso?
Não te deixes vencer e seja forte
Segue teu coração
Deixa que o amor te guie através da escuridão
De volta a um lugar que uma vez esteve
Eu acredito, eu acredito, eu acredito em você!
Segue teus sonhos
Transforma-te em um anjo de bondade
Não há nada que não possa vencer
Eu acredito, eu acredito, eu acredito em você!
Na solidão...assim você marcha
Com o coração aberto ao universo
Segue teu destino
Sem olhar para trás
Sem esperar mais
Que a manhã já se levanta
Eu sou sua estrela
Vê aonde teus sonhos te levam
Que a manhã te tocará
Se acreditares, se acreditares em você!
Eu sou tua luz
Não deixes que se apague a coragem que carregas
Ao final do caminho lembrarás
Que eu acredito, que eu acredito, que eu acredito em você!

FELIZ NATAL!!!


O ritmo alucinado de atividades deste ano me permitiu poucas visitas e postagens, pois entre escrever uma mensagem para o Blog e escrever um capítulo de livro, um artigo para uma revista científica, ou mesmo a leitura e correção de um texto escrito por meus orientandos ou alunos, acabei priorizando aos últimos e esgotando os momentos dos meus dias nestas empreitadas. E não consegui dar conta de tudo em 2012! Muita coisa sobrou para 2013!
Entretanto, hoje é um dia especial e me dei de presente estes poucos momentos para falar a todos os amigos e amigas que eventualmente acessam este Blog. É Natal!
Não importa se você é ateu ou crente, se este dia não passa de mais outro no calendário ou se é um dia diferenciado; olhe em torno: as pessoas se voltam, cada uma do seu jeito, para pensar um poucos nos outros, para lhes dar um presente ou uma lembrança. O presente, vindo ou não, é o que menos importa, pois o maior milagre já aconteceu e consiste no pensar no outro, no querer partilhar vida com o outro, no querer celebrar com o outro.
Este espírito de solidariedade, de querer estar junto, de acolher a alteridade, só este espírito tornou possível a espécie humana chegar até hoje e ocupar este planeta. Só este espírito, resgatado e tornado prática cotidiana, poderá evitar a extinção desta mesma espécie, tão voraz, competitiva e destrutiva.
Que o Natal nos renove as esperanças e as expectativas de um mundo mais justo, mais digno e mais pleno de paz para todos e todas, independentemente da etnia, da crença, das preferências sexuais ou políticas, das convicções éticas ou da geografia.
Amazing Grace, música composta possivelmente em torno do séc. XVII, virou hino religioso para alguns, mas traduz a presença do Deus menino, que lembrado todos os anos, apela para nosso espírito humano, que vivido em plenitude se mostra divino. Que a graça esteja com você, minha amiga e meu amigo. Um Feliz Natal junto àqueles e àquelas a quem você ama, na paz, na força, na honra, na Graça.  

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O TABULEIRO DE XADREZ E O TABULEIRO DA VIDA



O Xadrez é disputado num tabuleiro quadrado de 64 casas, sobre o qual as peças se movimentam e se confrontam. Este tabuleiro bem pode traduzir, em metáfora, os movimentos de um “tabuleiro” mais complexo: a vida em sociedade.
Primeiramente, é necessário, contudo, explicitar aos não iniciados no Xadrez a lógica do jogo e os principais movimentos no tabuleiro.
A lógica do jogo consiste na proteção ao Rei, peça central que se move para todos os lados, apesar de ter seus movimentos “lentos”, já que se desloca de casa em casa; a captura do Rei implica no fim do jogo, razão pela qual ele deve ser protegido a qualquer custo, ainda que com o sacrifício de qualquer outra peça. No tabuleiro, a Rainha é a segunda em importância, pois tem todos os movimentos do Rei, mas um deslocamento quase pleno, já que pode percorrer várias casas num só movimento; é a peça que, bem utilizada, se torna a mais forte no tabuleiro, tanto na proteção ao Rei e às demais peças quanto no ataque às peças adversárias. A Torre (com movimentos em linha reta), o Bispo (com movimentos oblíquos) e o Cavalo (com movimentos em “L” e possibilidade de pular sobre as peças) têm mobilidade maior que o Rei, em termos de potencial de distância percorrida, mas possuem limitações de movimentos que este não possui; são peças de proteção e de ataque, a depender das circunstâncias do jogo. Os peões, por sua vez, servem de primeira defesa às peças do jogador e de vanguarda de ataque às peças do oponente, movendo-se somente para frente e de casa em casa; a única hipótese de modificação de rota ocorre quando ele captura uma peça adversária (de forma oblíqua, passando a seguir em linha reta a partir do lugar onde a peça capturada estava). Em situações raras, quando não capturado e chegando ao fim do percurso (primeira casa do campo adversário), o peão transmuta sua natureza e pode se converter em qualquer outra peça, exceto o Rei.
As estratégias do jogo de Xadrez são voltadas, por conseguinte, para a captura do Rei adversário e para a proteção do próprio Rei. E tais estratégias se mostram mais ou menos eficazes e eficientes à medida que o oponente vacila, dá espaços, faz escolhas equivocadas, perde o controle ou algo nesta direção; igualmente isso vale para a ação do jogador.


O Xadrez e a política: duas metáforas

Das metáforas que permite o Xadrez, as relacionadas à política são as mais profícuas. E me vejo aqui a tergiversar sobre duas metáforas que o último final de semana de setembro trouxe à baila.

Movimento 1: Rainha se move para ajudar Rei a salvar Torre

Assim poderia ser descrito, em linguagem do Xadrez, o movimento que levou a Presidenta Dilma Roussef a gastar seu tempo numa peregrinação paulistana ao longo do último final de semana. Luís Inácio Lula da Silva necessitava do seu auxílio e socorro para alavancar a candidatura petista à Prefeitura de São Paulo, colando tal candidatura no prestígio que Dilma hoje apresenta junto à população, segundo os dados dos Institutos de Pesquisa. Isso porque o protegido de Lula não consegue, até o momento, fazer frente às demais candidaturas. Outrora idolatrado pela população, o prestígio Lula parece ter sido afetado por três fatores significativos: 1º) Não está mais diretamente no poder maior da nação; 2º) Tem sua imagem arranhada pelas suspeitas de seu vínculo com os episódios do “mensalão”; 3º) Foi sucedido na Presidência da República por uma estadista administrativamente mais competente.  
O primeiro fator é significativo em termos políticos, especialmente no Brasil, onde há uma cultura política ainda personalista. Assim, quem tem a caneta na mão e assina os papéis decisivos tem mais força política; aparentemente, Lula está longe da “caneta”, o que torna a sua força menos perceptível no meio do cidadão comum.
O segundo fator assume importância à proporção que, sob os holofotes da mídia, o julgamento do “mensalão” (ou, de no eufemismo, Ação Penal 470, como preferem os simpatizantes do referido esquema de corrupção) ocupa os noticiários e traz à tona a condenação e a imputação de responsabilidades aos personagens do dileto ciclo de amizades de Lula. Embora o ex-presidente tivesse afirmado desconhecer todo o esquema de corrupção, não é essa a sinalização que brota do julgamento do STF; tanto é assim que, há alguns dias, o Procurador Geral da República aventou a possibilidade de, no futuro, incluir o nome de Lula em investigações decorrentes do “mensalão”. Diante desta manifestação, imediatamente houve movimentação de peças no tabuleiro (partidos da “base aliada” ao governo, por exemplo) para “blindar” a figura do ex-presidente, pois a turma do “deixa disso” precisa garantir, a qualquer custo, que o Rei não receba xeque-mate.
O terceiro fator diz respeito, em grande parte, às virtudes da atual governanta-mor da nação, uma vez que Lula encontrou uma sucessora com maior capacidade de se portar enquanto estadista, já que reúne habilidades de gestão administrativa da máquina governamental superiores a ele. A sensação que passa a quem olha “de fora” do governo é a de confiança pelo controle gerencial que se mostra bem mais intenso atualmente no âmbito do governo federal. Lula, segundo depoimento de amigos meus que conviveram com ele ao longo do tempo, tem um carisma impressionante e uma grande capacidade de convencimento. Isso foi importante, no governo dele, para pavimentar uma credibilidade política, especialmente no exterior. Todavia, o ex-presidente pouco permanecia em Brasília e tinha, quando lá estava, uma agenda carregada de compromissos políticos, mas pouco tomada com questões administrativas. Este não parece ser o perfil de Dilma, que transmite a impressão de ter maior senso do que está a fazer, sob o aspecto administrativo-gerencial, ainda que careça de flexibilidade política em episódios que extrapolem a funcionalidade da máquina administrativa, como é o caso das greves no setor público.
E graças a estes fatores todos é que o Rei, fragilizado, recorreu à Rainha para salvar a Torre e, ao salvar a Torre, fortalecer-se novamente no jogo. O que virá deste movimento de peças: continuidade do jogo ou xeque-mate? Somente o tempo dirá.
  
Movimento 2: Os peões são movidos para trancar e empatar o jogo

Acompanhei, pelo G1, o debate dos candidatos à Prefeitura de Niterói. A metáfora do Xadrez se torna mais complexa porque eram vários tabuleiros e várias partidas sendo jogadas ao mesmo tempo. Entretanto, algumas observações sobre o movimento das peças são possíveis:
a) Dos quatro candidatos presentes, três deles apresentam vinculação a interesses políticos e a máquinas partidárias bastante pesadas, contando com o apoio de políticos de carreira cujo currículo está muito mais próximo de uma FAC (Folha de Antecedentes Criminais) do que de um Lattes (Curriculum Vitae do CNPq). Estes apoios, ao mesmo tempo em que fortalecem a captação de votos nos currais eleitorais, trazem desconforto no palco midiático, posto que nem sempre sejam companhias desejáveis para quem faz um discurso da transparência, da ética, da justiça, da eficiência, da igualdade, do bem comum ou do interesse público. É nesta ambiguidade movediça que três candidatos tiveram que construir sua performance.
b) Para evitar a “areia movediça” dos vínculos eleitorais e eleitoreiros, e já que ambos têm “telhado de vidro”, não poderiam ser “estilingues” e a estratégia utilizada pelos três candidatos foi a neutralização dos discursos, fator que implicou duas atitudes: na crítica aos demais candidatos, uma polidez mordaz, para não transparecer agressividade ou destempero ao eleitor, mas ainda assim cutucar o outro e dizer subliminarmente a ele “eu sei o que você fez ontem”; na apresentação de propostas, informações genéricas, imprecisas e pouco divergentes. Exemplar é o último bloco do debate, denominado pinga-fogo, onde nitidamente um ficava monitorando a resposta do outro e a acompanhava, havendo pouquíssima divergência entre os três candidatos; era o movimento dos peões, posicionados de forma articulada para trancar o jogo e conduzi-lo ao empate. É a política em seu mais puro e rasteiro exemplo de estratégia para a obtenção do poder e de sua conservação, não importando aí fatores como moralidade, justiça, bem comum ou interesse público. Resultado final deste jogo: empate, - pois cada um colheu aquilo que desejava ou imaginava poder obter naquelas circunstâncias. E a militância de cada um deles repercute nas redes sociais a vitória no debate, na ilusão de que isso convença aos desavisados.
Mas eu mencionei três candidatos. Não eram quatro os debatedores? Não são quatro os candidatos? Sim, há um quarto candidato, que merece um tratamento à parte, em face da postura que assumiu no jogo político e do movimento de peças que faz no tabuleiro.
c) O quarto candidato deve ter, certamente, pretensões de vencer as eleições e chegar ao poder político municipal, especialmente se os demais oponentes derem espaço para isso no movimento de peças que promovem. Entretanto, o quarto candidato tem sua proposta estruturada em torno de um apoio partidário de menor expressão nacional, em termos de máquina eleitoral. Parece, então, ter definido o período eleitoral como oportunidade de exposição de um projeto alternativo de sociedade, a qual é encampada como postura político-partidária, com vistas à obtenção de maior adesão social e aumento do potencial eleitoral para pleitos vindouros. Em face deste horizonte de possíveis pretensões, o referido candidato se moveu de maneira muito mais propositiva e segura, utilizando o espaço para expor as ações que pretende realizar. Igualmente se postou de maneira diferenciada na última fase do debate, quando divergiu em boa parte dos demais candidatos, especialmente no que tange às questões ambientais (contrário à fusão de reserva ambiental estadual com reserva municipal), de saúde pública (contrário à internação compulsória de consumidores de drogas como o crack), de apoio às questões de gênero (favorável ao investimento municipal à passeata do movimento gay) e de segurança pública (contrário à contratação de policiais militares em hora de folgas para fazer a segurança pública municipal), justificando na fala final porque adota tais posturas. Concordemos ou não com as posições e razões assumidas pelo quarto candidato, o fato é que ele assumiu posições e apresentou razões para elas. Neste sentido, acredito que igualmente atingiu os propósitos que possuía. E os militantes que o apóiam saíram do debate com renovada motivação, pois interpretaram, não sem razão, sob um dado aspecto, ter sido ele o melhor no debate.
Algumas questões parecem brotar enquanto incógnitas, a serem deslindadas em breve tempo: qual o alcance e a repercussão do debate? Num debate realizado via internet, num sábado, em horário de audiência baixa, quantos foram atingidos e impactados? Certo, o acesso pode ser feito a qualquer hora, gravado no site G1; mas que público teve e tem acesso a isso e o que este público significa no quantum eleitoral do município? Pode-se falar em vencedores e perdedores de um debate onde me parece que todos atingiram os objetivos almejados e não vacilaram a ponto de deixar margem para serem bombardeados pelos demais?
Todos jogaram bem, dentro das estratégias escolhidas: três foram opacos e empataram; o quarto jogou melhor, foi mais transparente, mas está diante do desafio hercúleo de superar a velha máxima esportiva que acompanha alguns clubes e alguns partidos: “jogou como nunca, perdeu como sempre”.
Quem perdeu? Perdeu quem não assistiu; perde a sociedade toda a vez que restringe o espaço de debate, optando por passar na TV seriados e novelas absolutamente alienantes e irrelevantes, que perpetuam no enredo novelesco o destino do Peão, sacrificado, iludido e mortificado durante 170 capítulos, mas redimido no último capítulo da novela, o 171, transmutando-se em Rainha, em Torre, em Bispo ou em Cavalo, jamais em Rei, porque o protagonismo é para os escolhidos, os eleitos, e isso é inacessível ao Peão.
Quem ganhou? Ganhou a democracia, enquanto espaço do debate acerca das razões que movem um ser humano em suas palavras e ações, silêncios e omissões: os candidatos puderam apresentar as suas razões, de forma coerente ou não, valendo-se de estratégia ou não, mas se expondo publicamente com razões. Somente este exercício democrático contínuo, sistemático e permanente poderá desenvolver uma cultura política que nos leve ao estranhamento quando alguém, no exercício de função, cargo ou mandato públicos, ousar achar que não tem de dar satisfações à sociedade sobre seus atos. E esse lento gestar de uma cultura política democrática participativo-argumentativa se apresenta, com todos os percalços e tensões, avanços e retrocessos nela possíveis, como condição de possibilidade de uma cidadania ativa, cosmopolita e solidária.

De ambas as metáforas entre a política e o Xadrez, assimilo como lição e convicção ao fato de que, se há um caminho para que a política não seja um jogo de Xadrez mecanicamente executado, onde lógica e estratégia servem de desculpas para a falta de sinceridade, para a hipocrisia, para a mentira deslavada repetida tantas vezes que se pretende aceitável socialmente, este caminho passa pela prática da democracia em todas as instâncias e instituições.
Ao contrário do que os marqueteiros e cabos eleitorais de plantão apregoam, partilhamos com Immanuel Kant a convicção de que política e moralidade são compatíveis, mesmo que olhemos para as práticas políticas cotidianas e para os debates políticos hoje travados e ainda vejamos nestes um distanciamento com relação ao coadunar de política e moralidade.
Esse distanciamento factual entre política e moralidade não deve ser encarado como um fosso intransponível, mas se converter num élan vital que nos desinstale da zona de conforto de nossa rotina e nos transforme em militantes da contrafactualidade, da luta pela democracia. O tabuleiro está posto, as regras do jogo estão presentes, o cenário está dado: resta-nos jogar. “Temos um jogo!”   

O XADREZ: UMA ODE À CAPACIDADE HUMANA


Sou um admirador de quem sabe jogar Xadrez, pois considero a este como um dos jogos mais representativos e desafiadores da capacidade racional humana, desenvolvendo habilidades subjetivas e intersubjetivas a partir de um contexto objetivo.
Há uma objetividade no Xadrez, marcada pela meta que, aos apressados e incautos, pode parecer ser a mera conquista da vitória numa partida, mas que vai muito além disso.
Em nome desta objetividade, assim como há quem veja no Xadrez apenas um jogo cujo objetivo é vencer a partida, há também quem queira reduzir o jogo ao simples cálculo computacional e lógico de possibilidades de movimentos de peças, de forma fria e asséptica, destituída de qualquer emoção ou aprendizado.
Um enxadrista é colocado inicialmente numa disputa consigo mesmo, subjetiva, posto que se lhe impingem exigências como concentração, atenção, visão periférica e holística do tabuleiro (para que perceba a movimentação das peças), planejamento de jogadas, avaliação de cenários e de possibilidades lógicas, versatilidade diante das contingências do jogo, decisão firme, ousada ou conservadora, diante das circunstâncias do jogo. Mas igualmente lhe são testadas o controle da ansiedade, a reação emotiva diante das adversidades, o medo, a tranqüilidade, o descuido, a capacidade de vencer e de perder, a euforia ou a decepção diante dos resultados.
Todavia, no Xadrez há fundamental e primordialmente um sentido intersubjetivo, a começar pelo fato de que há um “outro” com o qual eu jogo e que se volta contra mim na circunstância lúdica (adversário => “ad” = para; + “vertere” = voltar-se, virar). Conhecer este outro, estar atento a ele, observar seus movimentos e reações, compreender suas estratégias e a lógica dos seus movimentos, “ler” as suas atitudes, eis um grande desafio que se apresenta e que implica em ver o outro, estimar o outro, valorizar o outro, reconhecer a grandeza e a dignidade do outro enquanto pessoa.
Ademais, além de enfrentar-se a um oponente no jogo, há para ambos a presença de regras e procedimentos inafastáveis, pois são republicanamente anteriores àquele jogo e servem de parâmetro a todo e qualquer jogo de Xadrez, numa universalidade que extrapola cor, sexo, idade, etnia, fatores econômicos, religião, geografia ou política.
As regras e procedimentos com validade universal, contudo, não engessam a criatividade ou a individualidade, que se mostram no desenrolar da própria partida, nas decisões, movimentos, estratégias e ações dos participantes.
Outro aspecto primordial que deve ser levado em conta é o caráter lúdico do Xadrez: é um jogo! E isso significa, dentre outras coisas, que permite o lazer, a descontração, a convivência, a leveza da vida nesta “insustentável leveza do ser”. Há no jogo uma inutilidade e na inutilidade uma resistência à redução do humano ao “que serve para algo”, que pode ser usado em todas as circunstâncias; afinal de contas, como dizia a banda Ultraje a Rigor, em música épica, “a gente somos inútil”.
Mas o fato de ser inútil não torna o Xadrez sem significado ou importância; muito ao contrário, ele é uma imensa oportunidade de aprendizado para as demais atividades e dimensões da existência humana, constituindo-se num manancial de metáforas e lições, aplicáveis aos diferentes campos da sociedade.
Por tudo isso, o Xadrez tem como finalidade muito mais do que a simples vitória numa contenda entre dois oponentes, mas a possibilidade de desenvolvimento do maior atributo que a natureza nos legou, a capacidade racional de um ser sensorial. No Xadrez, como diria o comentarista da ESPN Paulo Antunes, “temos um jogo!”